MODAS E VIOLA

Espaço que reservo à divulgação das belezas da viola, este instrumento tão brasileiro, embora vindo de terras européias, quanto o tropeiro, o samba, o carnaval, e abro para as coisas de Guanambi, minha cidade querida | Ari Donato

MODAS E VIOLA

Espaço que reservo à divulgação das belezas da viola, este instrumento tão brasileiro, embora vindo de terras européias, quanto o tropeiro, o samba, o carnaval, e abro para as coisas de Guanambi, minha cidade querida | Ari Donato
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Terra Blog

25.08.08

Manto

categorias: Poesia


Uma tempestade cai sobre os desmatados campos de Guanambi | Foto João Martins

 

Cobre mi’alma negra nuvem
que de muito longe vem,
bafejada pela dor
de não saber quem mais sou.

Vasta, imensa em torpor,
toma-me então todo o corpo,
traspassa-me o coração.
Oh! pontiaguda razão,

por que tão severa pena?
Viesses tu sombra, amena,
por certo eu suportaria

o suplício desse eclipse.
Mas sua vingança em riste
mata a cega idolatria.


ari donato

24.08.08

Passos.Cap_3

categorias: Texto

Continuando com "Passos" 

ESTAVA em Salvador há uma semana. Chovia com freqüência na cidade, o que era comum entre os meses de julho e setembro, e eu passava horas a olhar a chuva cair sobre o asfalto e escorrer, rente às calçadas, diferente das enxurradas que eu via em Guanambi, tortuosas e largas, a lamberem as ruas e a abrirem crateras, que a meninada explorava, após a chuva, na procura de objetos diversos empurrados pelas águas. Pensando nessas diferenças eu dormia e acordava ouvindo o barulho da chuva lá fora; quase não via o sol ao amanhecer, nem como descia no horizonte. Quando as luzes, à tardinha, nos postes de iluminação, intensificavam a luminosidade e o céu se escurecia é que tomava conhecimento do fim dia.

Assim, desvairado, não fui assistir ao desfile cívico-militar naquele que foi o meu primeiro 7 de Setembro na capital baiana, que festejava, como em todo o País, o sesquicentenário da Independência. Mais em razão do estado psicológico em que me encontrava, de profunda tristeza por estar longe de meus pais e irmãs, do que pelos motivos políticos adversos e antimilitar que agitavam parte da população do País. Minha avó Maria Alice viera de Guanambi para me visitar, acompanhada de meu tio Idalino, irmão da minha mãe, e me fez ver que deveria permanecer em Salvador e estudar, pois assim desejavam ela e meu avô Domingos Antônio Teixeira.

As conversas com minha avó amenizavam meu abatimento, o qual me mostrou, ao ferir minha alma, o real sentido da palavra banzo, tanto utilizada em meus trabalhos escolares na definição da nostalgia que se abatia sobre os africanos trazidos para o Brasil como escravos. No caso dos africanos, eles padeciam de um processo psicológico causado pela perda da identidade cultural, que provocava nessa gente escravizada, transportada para terras distantes, um estado inicial de forte perturbação, seguido de ímpetos de destruição, depois de nostalgia profunda, com quadros de apatia, inanição e, em alguns momentos, loucura ou suicídio. O tráfico negreiro começou no Brasil por volta de 1559, quando a metrópole portuguesa permitiu, oficialmente, o comércio escravista. Isso eu sabia; mas desconhecia o mal que poderia causar uma ruptura dessa natureza.

Eu não assisti à parada, nem mesmo sabia, como parte de um grande pelotão da população brasileira, que naquela primeira semana de setembro de 1972 soldados do Exército Brasileiro saíram de Cristalina, em Goiás, com destino à região de Xambioá, parte norte do antigo Estado de Goiás (hoje Tocantins), para combater um movimento de militantes do Partido Comunista do Brasil, no choque que ficou historicamente conhecido como Guerrilha do Araguaia. Pouco divulgado no período, em razão da censura imposta pela ditadura militar brasileira, este movimento se arrastou até 1975 e se configurou como um episódio de resistência, a exemplo da Guerra de Canudos, com grande massa popular no interior da Bahia, de 1896 a 1897, e também reprimida militarmente. Os guerrilheiros do PCdoB mobilizaram a população residente em torno do Rio Araguaia a ponto de as Forças Armadas, segundo dados posteriormente divulgados pela imprensa, necessitarem de um efetivo acima de 12 mil homens para desmantelar a resistência. Anos depois vim a tomar conhecimento que entre esses guerrilheiros estavam jovens da minha idade, todos empenhados na luta pela democracia. Entre eles, a estudante Helenira Rezende, dirigente da União Nacional dos Estudantes (UNE), de quem eu, já militante do Movimento Estudantil, tornei-me admirador.
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Região onde se registrou o conflito armado, em resistência ao regime militar
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Da Guerra de Canudos, li sobre o delírio coletivo em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, instigado pela professora Nice Amaral, que destacava em sala de aula o estilo jornalístico do texto, publicado em forma de reportagens no jornal Província de São Paulo (atual O Estado de São Paulo), depois concentradas neste clássico, marco do que se chama de pré-Modernismo na literatura brasileira e primeiro documento a revelar o contraste cultural do sertão e do litoral. Essas reportagens impediram que as forças dominantes apagassem da história o levante dos sertanejos baianos.

Eu também sabia de outros movimentos, do Quilombo dos Palmares, da Cabanagem, da Revolta da Chibata, mas, o movimento do Araguaia, tão contemporâneo, desconhecia completamente. Sabia mesmo que no final de setembro daquele ano o general Emílio Garrastazu Médici (presidente de 1969 a 1974) inauguraria a rodovia Transamazônica (BR-230), ironicamente com extenso trecho na área de conflito. Vivíamos o Milagre Brasileiro, sustentado em um crescimento de 11% do Produto Interno Bruto (PIB), entre 1968 e 1974, que avalizou obras e projetos ambiciosos no governo militar, desenvolvidos ao lado de uma concentração cada vez mais acentuada da renda nacional, um problema ainda não resolvido.

E a Transamazônica, rodovia transversal que começa em Pernambuco e Paraíba, passa por Maranhão, Tocantins, Pará, Amazonas e Acre, com objetivo de ligar todo o País e chegar aos portos do Oceano Pacífico, num percurso de 8.100 quilômetros, passou a ser sinônimo de problemas.

Leia o Capítulo 2

© ari donato.2008

17.08.08

Balada em final de tarde

categorias: Poesia

 
Aos seus pés guardei meu amor, meu sonho
Irises, 1889, de Vincent Van Gogh (1853-1890) -

 

Hoje quando o sol se for, no horizonte,
vou firmar os olhos nos últimos raios.
Quem sabe a vejo por cima dos montes.
Sei que distante também pensa em mim.

No caminho, até onde posso enxergar,
espalhei meu sonho, minha candura.
Pise com brandura, por onde andar,
sob seus pés está um pouco de mim.

A tarde foi embora e tudo já escurece.
Eu não vi você. Meus olhos choram
e deles, agora, um triste pranto desce.
O sol se pôs e levou você de mim.


aridon.2008

12.08.08

Secura d´alma

categorias: Poesia


Deserto de Sonora, no Arizona (EUA) | Foto Divulgação

 

Há momentos tristes,
de secura d´alma,
a extinguir-me a vida, 

                  qual a luz no ocaso.
                  Momentos amargos!

Tardes sem mudanças,
de espaços vazios,
sem cores, amiga.

                  Quer me sopre o vento
                  ou me mude o tempo.

 

 

09.08.08

Passos.Cap_2

categorias: Texto

Continuando com "Passos"

O ISOLAMENTO somente perdia a força quando eu retornava ao apartamento de meus tios Oton e Arlete, onde o pequeno Fred Ricardo, com menos de um ano idade, nos alegrava a todos. Aí, eu me recolhia e amargurava uma salgada solidão, uma saudade de minha família, que eu abafava, ouvindo músicas em um pequeno rádio transistorizado que trouxera de casa, dado a mim por meu pai, que o recebera como brinde na compra de um aparelho de televisão, meses antes de meu embarque para Salvador. A recepção de imagens para televisão começara em Guanambi, de forma sofrível, em 1971.

Mas, a mudança do espaço geográfico alterou a região de abrangência na freqüência das ondas hertzianas e algumas estações de rádio sintonizadas no sudoeste do Estado não podiam ser ouvidas no litoral do Estado, onde se situa a capital. Isso eu sabia, havia estudado em Física, mas me desesperava, passando e repassando o dial do aparelho na esperança de uma mudança. Mas, nada...

Assim, perdi o contato com os programas de música sertaneja ouvidos por meu pai, pela manhã e nos finais de tarde, nas rádios Aparecida, Record e Nacional. As modas de viola e as toadas sertanejas desapareceram do meu dia-a-dia, até mesmo o que restou do movimento Jovem Guarda foi reduzido para mim, não só devido ao sacrifico imposto pelos veículos de comunicação locais, comprometidos com a cultura regional, mas pela massificação, trazendo uma enxurrada de músicas estrangeiras.

Ainda ecoam em meus ouvidos, transmitidas pela Rádio Cruzeiro, já no final de 1972, as canções “Without you”, com Nilsson, “Alone again”, com Gilbert O'Sullivan, “Rock-and-roll lullaby”, com B.J. Thomas, “Summer holliday”, do brasileiro Terry Winter, “Ben”, com Michael Jackson, “Imagine”, com John Lennon, “I can see cleary now”, com Johnny Nash, e “Son of my father”, com Giorgio, e as nacionais “Como vai você”, com Roberto Carlos, “Fio maravilha”, com Maria Alcina, “Oração de mãe Menininha”, com Maria Bethânia e Gal Costa, “Eu quero é botar meu bloco na rua”, com Sérgio Sampaio, “Mon amour, meu bem, ma femme”, com Reginaldo Rossi, e “Preta pretinha”, com Os Novos Baianos.

Uma obra de arte, defendem especialistas em comunicação, somente existe na medida que é percebida, independentemente da quantidade do público que toma conhecimento ou da forma como ele a interpreta. Aplicando esta assertiva à música, na condição de arte, nós identificaremos o rádio como veículo fundamental na divulgação e popularização da cultura pois, se antes era preciso se deslocar até locais públicos para ver ou ouvir um artista, com a ampliação dos canais artificiais de comunicação de massa ele passou a vir até a casa de cada ouvinte.

Quando cheguei a Salvador, o rádio brasileiro comemorava 50 anos da primeira transmissão no País, ocorrida em setembro de 1922, no centenário da Independência, na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Com fases distintas, divididas em programações dominadas pela música popular brasileira na década de 1920, programas de reportagens nos 10 anos seguintes e transmissões esportivas e programas de auditório nas décadas de 1940 e 1950, o rádio chegou aos anos 1970 sob o advento das emissões em FM (freqüência modulada), as quais determinaram alterações na linguagem radiofônica das emissoras de OM (ondas médias).

Por essa época, o jornalismo no rádio, que já ocorria desde os anos 1940, nos moldes do “Repórter Esso”, altera sua forma, vale-se da instantaneidade e passa a fornecer serviços e noticiar o fato ao mesmo tempo em que acontece. Estamos a experimentar esta situação neste século XXI, com o uso da Internet. A mudança no rádio refletiu no jornalismo informativo tradicional da imprensa escrita, levando jornais e revistas a criarem novas formas editoriais. Embora com formação política limitada, também fui alvo desse processo e vi aumentar a força do jornalismo opinativo, pós-1964, que, além dos fatos, fazia análises, dava opinião, o que abriu espaço para o chamado jornalismo de resistência, que trouxe a imprensa independente, alternativa.

Foi quando tomei a decisão de que o Jornalismo seria o caminho a seguir, uma deliberação reforçada ainda na década de 1970, após conhecer o jornalista Raimundo Pereira e o jornal “Movimento”, que ele editou, entre julho de 1975 e o final de 1981. Quando iniciei os estudos para Jornalismo, em janeiro de 1974, na Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal da Bahia, meu tio e meu incentivador Antônio Oton Neto, o patrocinador da minha vida para Salvador, disse-me, afetuosamente: “Sentirei orgulho disso”. Quando ele faleceu, em maio de 2003, com 64 anos incompletos, eu já era jornalista profissional. Graças, assim, à sua ajuda e incentivo.

Leia o Capítulo 1

© ari donato.2008