30
de
junho
Passos.Cap_1

Guanambi, no sudoeste do Estado da Bahia | foto Ari Donato
À beira do caminho…
Um passo aqui, em frente,
dois ali, para os lados.
Depuro as vistas,
e outros mais, para trás.
Um ziguezague, um labirinto.
CHEGUEI a Salvador em uma madrugada de final de agosto de 1972.
Pouca coisa eu percebi da entrada da cidade, pois dormira logo que o ônibus passara por Feira de Santana, por mais de uma hora, acredito. Acordei na velha rodoviária da capital, nas Sete Portas, que continuaria a servir de ponto de embarque e desembarque de passageiros por mais uns três anos, até ser substituída pela atual Estação Rodoviária, no Iguatemi.
Tomei um táxi, o primeiro da minha vida, com destino ao conjunto residencial Santa Madalena, na Avenida Vasco da Gama, no Rio Vermelho. Chovia fino e eu sentia frio. Minha única visão de cidade maior do que Guanambi, onde vivi até antão, era a de Itabuna, desde que lá estive, em 1970, como presidente do Centro Cultural Assis Chateaubriand, do Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho.
Nos meus primeiros dias em Salvador um médico poderia diagnosticar descompensação nos mecanismos de regulação do equilíbrio fisiológico, por conta de estímulos para os quais meu organismo não possuía uma resposta imediata. O impacto cultural foi grande, deixou-me em estado de choque, e as imagens desse primeiro contato somente viria a perceber anos depois, embora muitas delas já tenham se esvaído da minha mente. E, também, de minhas vistas, dada as mudanças urbanas impostas à cidade desde que pisei em suas ruas pela primeira vez.
Ainda me lembro de um outdoor, meio de propaganda que até então desconhecia, nos arredores do Dique do Tororó, a anunciar o filme “Um farol no fim do mundo”, de 1971, com Kirk Douglas, Yul Brynner e Samantha Eggar, em exibição no Cine Tupy, que ficava à entrada da Baixa dos Sapateiros, próximo a uma clareira onde, no final da década de 1970, foi construída a atual Estação do Aquidabã. Este não foi o único filme que marcou meus primeiros dias em Salvador. Além do melodrama musical brasileiro “Coração de luto”, de 1966, com o cantor popular Teixeirinha, assisti, petrificado, em frente a uma imensa tela, a “Inferno no Pacífico”, de 1968, com Lee Marvin e Toshiro Mifune, os dois nas melhores interpretações da carreira.
…….
…..
….
…………..
No filme, a luta pela sobrevivência de um oficial da Marinha japonesa e um fuzileiro norte-americano, isolados em uma ilha do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, agravada com a limitação imposta na comunicação pelo idioma e a cultura de cada um, muito me comoveu, de maneira que me vi tal qual aqueles soldados. Senti-me isolado na nova cidade, tão distante dos que conheciam meus hábitos, meus costumes, minhas necessidades, e, por mais que falasse a mesma língua daqueles que me rodeavam, pouco me comunicava com eles.
Eu era uma pessoa em meio a toda aquela gente, pois, se a linguagem é o método mais completo de comunicação entre os seres humanos, e se se mostra como fato social, já nos primeiros meses desde a minha chegada a Salvador perdera este intercâmbio, porque, para que fosse completado, seriam necessárias a emissão e a recepção de mensagens. E certamente isso não estava havendo. Daí meu desespero, ao constatar que nos primeiros meses da nova fase de minha vida, na enorme ilha urbana em que Salvador se apresentava para mim, eu forçava contatos com as pessoas como forma de fugir desse isolamento social, da ausência da comunicação e também para ouvir a minha própria voz, em meio ao arquejar da cidade.
Às vezes perguntava a um transeunte ou outro sobre as horas, pedia informação a respeito do trajeto de um ônibus ou sobre determinada rua para, em seguida, pronunciar, pausadamente, um “obrigado”, de modo a me impelir à comunicação.
Leia o Capítulo 2
© ari donato.2008


Comentário por Mário — 12/07/2008 (23:37)
E aà Ari, blza?
Tava aqui de bobeira, trancado em meu mundo, quando li esse seu texto e vi o porquê de vir buscar refúgio na net: a falta de comunicação. Mais cedo eu fui a uma lanchonete e vi muitas pessoas se divertindo — namorados, amigos e famÃlia. Bateu a nostalgia… lembrei de minha namorada, dos meus amigos e de minha famÃlia lá de Conquista, onde criei um laço de amizade muito forte com várias pessoas, as quais me orgulho de dizer que conheço. Andar na rua sem conversar com ninguém, chegar numa lanchonete e falar apenas com o garçom, tomar uma cerveja só é muito ruim… já conheci muitas pessoas aqui, mas só posso dizer que sou amigo no pessoal do jornal, com os quais compartilho minhas dúvidas, anceios e estados emocionais. Sei que farei boas amizades aqui. Mas até chegar lá, será que nem o momento do reencontro com minha namorada: um acontecimento muito esperado.
Gostei muito desse texto. Li as poesias também, estão ótimas!!
Grande abraço e muita Luz,
Mário
Comentário por ari donato — 14/07/2008 (19:08)
Obrigado, Mário. Um abraço e vamos em frente. Conte comigo.