MODAS E VIOLA

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28

de
junho

Lundu - ritmo afro-brasileiro I


A dança do lundu, na gravura Cena do Rio Antigo, registrada por volta de 1825 pelo pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858)

IMAGINANDO QUE se pudesse escrever a Música Brasileira em uma pauta e tomássemos uma faixa, pegando da época da colonização até o início do século XX, mais precisamente 1917, ano da gravação do que seria o primeiro samba (“Pelo telefone”) por Ernesto Joaquim Maria dos Santos (1891-1974), o Donga, perceberíamos que alguns dos gêneros musicais correntes neste período diminuem, enquanto outros aumentam e se subdividem.

Entre os que se retraem está o lundu, oriundo da música popular urbana, uma ramificação que se distanciou dos elementos africanos e indígenas, estes espalhados por todo o País e em tom mais acentuado na zona rural. Conforme verbete da Enciclopédia Barsa Universal, o que se define como música urbana, vinda da aculturação afro-européia, evoluiu em algumas regiões da então colônia, mais nos centros urbanos, especialmente o Rio de Janeiro.

Entretanto, se o Rio de Janeiro, sede da capital federal, montou os primeiros acordes desta que seria a música popular urbana, sob influência das emboladas de Almirante (1908-1980) e de Noel Rosa (1910-1937), do baião de Luiz Gonzaga (1912-1989) e de outros gêneros, a exemplo do cateretê, batuque, samba e maxixe, foi a Bahia, com o lundu e a modinha, que forneceu a base para os primeiros elementos rítmicos e melódicos do cancioneiro do Brasil.

O radialista, musicólogo e pesquisador natural de Juazeiro (BA) Perfilino Neto (67 anos) vê a Bahia como pioneira da Música Popular Brasileira, em seu depoimento sobre o lundu, escrito para a Secretaria da Educação do Estado da Bahia, em 2000. Diz ele que a trajetória da música brasileira começa em fins do século XVII, quando o poeta satírico Gregório de Mattos Guerra (1633-1696), o Boca do Inferno, já compunha e cantava lundus, acompanhando-se à viola.

Somente meio-século depois das cantorias de Gregório de Mattos é que o poeta e violeiro fluminense Domingos Caldas Barbosa (1738-1800) passa a difundir essas cantigas. Perfilino Neto defende que o poeta, mulato, filho de português e uma escrava levada de Salvador para o Rio de Janeiro, cantava, na verdade, modinhas anteriormente divulgadas em saraus pelas ruas de Salvador e que lhe foram, inegavelmente, repassadas por sua mãe.

Em sua coletânea em dois volumes, “Viola de Lereno”, publicada em Portugal (1798 e 1822) e na Bahia (1813), Domingos Caldas Barbosa trazia poemas com fraseado próximo ao da modinha e do lundu. O compositor e poeta juntava traços afetivos do brasileiro de forma distinta da dos portugueses e com abordagem romântica, embora pouco profunda. Em Lisboa, para onde foi estudar, suas trovas ao som da viola de arame foram muito apreciadas.

“Este lundum me dá vida
Quando o vejo assim dançar;
Mas temo se continua,
Que lundum me há de matar

Ai lembrança
Amor me trouxe o lundum
Para meter-me na dança”?

José Ramos Tinhorão, no livro “Domingos Caldas Barbosa, o poeta da viola, da modinha e do lundu”, ao buscar as razões que levaram o primeiro menestrel brasileiro a escrever este “Lundum em louvor de uma brasileira adotiva”, em “Viola de Lereno”, defende (pág. 123) que a palavra “lundu” vem de “calundu”, dança ritual religiosa africana (às vezes chamada de “lundu”), que induz a um estado de possessão ao qual se dá o mesmo nome.

Tinhorão diz, ainda, que, na Bahia, o poeta Gregório de Mattos Guerra mostrava um padre maganão (negociante de animais ou de escravos) a zombar da possessão da sua amante pelos calundus, comentando: “que lhe dava [o padre] dos lundus/ se é mais que os lundus magano?”. Daí, raciona Tinhorão, que mais tarde dizia-se estar alguém “com seus lundus”, “ou calundus”, quando possuído de profunda tristeza e melancolia.

Assim, igualmente apreciado nos principais centros urbanos do Brasil, o lundu chega ao século XIX na qualidade de forma musical dominante e de primeiro ritmo afro-brasileiro, permanecendo nesta condição por muito tempo. É quando os principais compositores da época dão-lhe a formatação musical, enquanto a viola se firma na condição de instrumento de acompanhamento. No início do século XX começa a apresentar os primeiros sinais de perda de evidência.

Mas, foi um lundu (“Isto é bom”) o primeiro ritmo registrado em disco fonográfico no Brasil, 15 anos antes do clássico samba de Donga. Embora a gravação tenha ocorrido no Rio de Janeiro, em 1902, pela Casa Edison (pela gravadora alemã Zon-O-Phone, que lançou o primeiro com gravações de música brasileira), o autor e o intérprete eram baianos. O primeiro, o ator e compositor Xisto de Paula Bahia (1841-1894), era de Salvador; o segundo, o cantor “Baiano”, registrado Manoel Pedro dos Santos (1870-1944), de Santo Amaro da Purificação.

© ari donato.2008

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