MODAS E VIOLA

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31

de
julho

O mestre violeiro I


Na região de Monte Azul, norte de Minas Gerais, na divisa com a Bahia, nasceu José Dias Nunes, o Tião Carreiro, instrumentista, cantor e compositor mineiro criador do ritmo pagode de viola | Google Earth e Divulgação

Da cidade de Guanambi, no sudoeste da Bahia, até Monte Azul, no norte de Minas Gerais, região onde nasceu a 13 de dezembro de 1934 o violeiro e criador do pagode de viola, Tião Carreiro, registrado José Dias Nunes, são cerca de 130 quilômetros. De automóvel, gastam-se pouco menos de 2 horas para completar o percurso, pela rodovia BR-122.

Tião Carreiro jamais foi a Guanambi, onde quase que diariamente duplas de violeiros lhe rendem homenagens em bares, rádios, festas e em diversas manifestações musicais, cantando seus sucessos. Não há apreciador da música caipira nesta região de divisa que desconheça a trajetória do criador do pagode de viola, ritmo que traz traços do samba de roda do recôncavo baiano.

Quando contava com 10 anos, José Dias, os seis irmãos e os pais, os lavradores Orcissio Dias Nunes e Júlia Alves das Neves, deixaram o Vale do Jequitinhonha e foram para o interior de São Paulo. A família passou por Paulópolis e Oriente, quando faleceu o pai, depois seguiu para Flórida Paulista, onde residia a avó materna, e Valparaíso, para tocar roça. Por esta ocasião, o futuro violeiro chegava aos 16 anos e já começava a tocar a viola que recebera de herança do seu pai. Mas, era preciso ajudar no sustento da família e José Dias Nunes foi garçom no restaurante de um hotel, onde alegrava os hóspedes, tocando violão e cantando. Sua primeira apresentação foi em uma rádio local.

A estréia em disco veio em novembro de 1956, com um 78 rpm que trazia a moda de viola "Boiadeiro Punho de Aço", no lado A, e o cururu "Cavaleiros de Bom Jesus", no lado B, em dupla com Antônio Henrique de Lima (1932-2001), o Pardinho, paulista, ex-trabalhador braçal e cantor de horas vagas, que ele conheceu em um circo, na cidade de Pirajuí, interior paulista.

Antes de formar dupla com Pardinho, o mineiro Tião Carreiro usou o nome de Zezinho (ao lado de Lenço Verde), Palmeirinha (com Coqueirinho) e Zé Mineiro (e com Tietezinho) durante quatro anos. A dupla Tião Carreiro e Pardinho foi formada em 1954 e venceu, em 1956, um torneio de violeiros patrocinado pela Rádio Tupi de São Paulo, com o cururu "Canoeiro", de Zé Carreiro. A vitória despertou a atenção de Teddy Vieira, compositor e diretor da gravadora Colúmbia, que chamou os dois para gravarem o que seria o primeiro disco da dupla. Depois, gravaram o segundo 78 rpm, com "Resposta de bombardeio" e "Urutu cruzeiro", também moda de viola e cururu. O nome Tião Carreiro foi inspirado por Teddy Vieira em Carreiro, da dupla Zé Carreiro e Carreirinho.

O ritmo do pagode de viola surgiu em 1959, durante uma apresentação de Tião Carreiro, em Maringá (PR), em que ele bate a viola, cruzada com o violão, numa mistura do recorte do catira lento com o recortado mineiro. Depois, foi mostrado a Lourival dos Santos e Teddy Vieira, que viram uma semelhança com o pagode dos bailes mineiros. Mas, somente seria registrado em disco em 1960, na letra "Pagode em Brasília", de Lourival e Teddy, escrita em homenagem à nova Capital federal. Estudiosos da MPB consideram "Pagode em Brasília" um marco para o pagode de viola, assim como "Chega de Saudade", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, gravada dois anos antes por João Gilberto, está para a bossa nova. Na definição do cantador mineiro Teo Azevedo, o ritmo criado por Tião Carreiro é uma junção do coco nordestino com o calango de roda. As duas levadas – coco nordestino e calango de viola – ainda são muito utilizadas pelos violeiros e cantadores na região em que Tião e o próprio Teo nasceram, quase na divisa com a Bahia.

Com Pardinho, parceiro de dupla, Tião Carreiro gravou 51 discos, reunindo cerca de 700 músicas. A dupla se separou por seis vezes: uma delas, em 1978, registrou o maior afastamento, que terminou em 1982, quando se juntram para gravar o "Navalha na Carne", de pagodes. Em 1991, a dupla foi extinta e Tião formou dupla com Praiano. O primeiro disco em solos de viola caipira, "É isto que o povo quer", foi lançado em julho de 1976. Uma obra de arte que nasceu da curiosidade que Tião Carreiro despertava em seu público ao apresentar os pagodes na viola. Em 1979 lançou o segundo LP em solos de viola caipira, com o título de "O criador e rei do pagode".

Grande parte da sua juventude, Tião Carreiro viveu em Araçatuba (SP), cidade fundamental para a sua formação musical. Foi lá que conheceu Nair Avanço, em junho de 1953, com que se casou no ano seguinte. Tiveram uma única filha, Alex Marli Dias, casada com Gilberto Rodrigues da Silva e mãe de Renan Rodrigues da Silva, o único neto de Tião Carreiro.

Segundo seu site oficial (www.tiaocarreiro.com.br), gravou 27 discos em 78 rpm (nove com Carreirinho e 18 com Pardinho) e 41 LPs, depois remasterizados em 41 CDs (33 com Pardinho, um com Carreirinho, quatro com Paraíso, dois discos solo e um com Praiano), 15 compilações em LP e compactos. Seus últimos trabalhos foram o disco "O fogo e a brasa", em dupla com Praiano, em 1992, e uma participação especial, em 1993, no terceiro disco da paulista Jayne, prêmio Sharp como revelação em 1991.

Tião Carreiro morreu no dia 15 de outubro de 1993, por conta de complicações provocadas por uma diabetes.

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Pagode em Brasília
(Teddy Vieira - Lourival dos Santos)

Quem tem mulher que namora / quem tem burro impacador
quem tem a roça no mato / me chame que jeito eu dou
Eu tiro a roça do mato / sua lavoura melhora
e o burro impacador / eu corto ele de espora
e a mulher namoradeira / eu passo o coro e mando embora.

Tem prisioneiro inocente / no fundo de uma prisão
tem muita sogra encrenqueira / e tem violeiro imbrulhão
Pro prisioneiro inocente / eu arranjo adevogado
e a sogra increnqueira / eu dou de laço dobrado
e os violeiro imbrulhão / com meus versos estão quebrado

Bahia deu Rui Barbosa / Rio Grande deu Getúlio
Em Minas deu Juscelino / de São Paulo eu me orgulho
Baiano não nasce burro, / gaúcho é o rei das cochilha
paulista ninguém contesta / é um brasileiro que brilha
quero ver cabra de peito / pra fazer outra Brasília

No estado de Goiás / meu pagode está mandano
O Bazar do Valdomiro / em Brasília é o soberano
No repique da viola / balancei o chão goiano
Vou fazer a ritirada / e despedir dos paulistano
Adeus que eu já vou m’imbora / Que Goiás tá me chamano.

Obs.: A grafia segue a pronúncia do intérprete, na gravação de 1961.

© ari donato.2008
Com informações do Portal Tião Carreiro (www.tiaocarreiro.com.br), Enciclopédia da Música Brasileira/Sertaneja, da PubliFolha (2000) e Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira (www.dicionariompb.com.br).

Arquivado em: Viola I

2 Comentários »

  1. Comentário por Adriana — 13/08/2008 (7:53)

    Ari, fiquei tão feliz de visitar seu blog. Não nos conhecemos mas a serenidade com que escreve faz bem a qualquer pessoa. Estava procurando uma musica para introduzir adjetivos pátrios na classe da 4ª série quando me deparei com essa música. Parabéns, que Jesus te abençoe.

  2. Comentário por ari donato — 13/08/2008 (11:37)

    Adriana, fiquei muito feliz com suas palavras, que me emocionaram bastante. Que Cristo nos abençoe a todos.

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