MODAS E VIOLA

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31

de
agosto

Sete horas; não as últimas!

31 DE AGOSTO DE 2008
Minhas últimas sete horas na Redação de A TARDE passaram rápidas, e eu pensei que seriam lentas, tristes e doloridas. Mas, não foram e não me machucaram; ao contrário, mostraram-me que ao meu redor transcorria um ambiente de carinho, de amor e de fraternidade.

Os colegas com os quais trabalhei na noite do último dia não representaram, a bem da verdade, aquela figura dos derradeiros, daqueles a permanecerem até o fim, pois todos os demais ficaram comigo, mesmo não passando as últimas sete horas ao meu lado. Sentia-os todos em espírito.

Pouco antes das 22 horas, quando o secretário de Redação Wilson Gasino chamou a atenção dos que ainda trabalhavam, para dizer que eu estava indo embora, eu percebi, a cada abraço, a cada aperto de mão recebido não haver dor ou tristeza em mim, ao contrário, muita felicidade.

Como poderia sentir tristeza, dor, se em minha alma ressoavam as muitas palavras de amor fraterno que ouvira nas outras horas que antecederam as últimas que passei na Redação. Meus olhos ainda estão molhados, mas por lágrimas de alegria, de ver tanto carinho nas pessoas.

As horas escorriam e eu exercia sem exageros as últimas tarefas de redator da Primeira Página, da Página 2 e da Agência A TARDE de Notícias. Meu último texto para o jornal foi um título simples, de chamada para uma matéria na página 16: “SET pára 570 na orla marítima”.

Desci as escadas, deixei para trás a querida Redação, agora uma ampla sala, cerca de quatro ou cinco vezes maior do que a que me acolheu, em novembro de 1977, ainda estudante de Jornalismo e levando os ensinamentos de professores, com alguns dos quais trabalharia durante décadas.

De soslaio, através da porta de vidro, pude divisar as luzidias telas coloridas dos terminais de microcomputadores, onde, antes, eu vira pesadas máquinas de escrever, assentadas sobre sólidas mesas e ladeadas por cestas sempre tomadas de papéis amassados, rascunhos de heróicas reportagens.

Segui pelo corredor principal, no piso inferior, em direção à saída do prédio, e passei defronte a salas onde, há décadas, verde no Jornalismo, vi a calandra com o chumbo quente de produção de matrizes, as linotipos, as tiras impressas para a revisão, os clichês para impressão das fotos. Senti saudades.

Quando sai do prédio, o relógio marcava 22 horas. Percorri a área externa, onde pouco automóveis estavam estacionados. Meu coração se abriu, minha alma se desfolhou e eu chorei um choro de felicidade, não de tristeza; de alegria, não de dor; de amor, não de ira. Foi um choro de vitória.

Pelo espelho retrovisor do meu carro, ao entrar na Avenida Tancredo Neves, vi a portaria do jornal sumir na curva, envolvida pela escura noite de final de inverno. Limpei as lágrimas, firmei as vistas na avenida que se abria em minha frente e rezei: "Obrigado meu Deus, por tudo que tendes me concedido!"

Lembrei-me, então, do poema que fiz, em 1975, com saudades da minha Guanambi.

Saudade
Duro som terrível toa de pólo a pólo (Garret)

Sau-da-de…
Sau-da-de…
fim de tarde, céu limpo.
Sinos badalam nas igrejas!

Se fosse um sino,
por certo eu soaria
Sau-da-de…
sau-da-de…

Saudade não tem gosto,
mas o sinto.

Se fosse um sino,
seria sau-da-de,
que de mim toaria.

© ari donato.2008

Arquivado em: Opinião I

8 Comentários »

  1. Comentário por katherine funke — 01/09/2008 (16:32)

    caríssimo ari. sentirei sua falta. quando o coração apertar, lá na redação, vou fechar os olhinhos e pensar naquele dia em que você trouxe a viola e tocou um pouquinho… foi lindo. ou então na sua paciência infinita. estarei lá no seu almoço de despedida (espero). só tenho um pedido: não suma. bóra aproveitar agora para fazer mais violas e cantorias. um abração.

  2. Comentário por ari donato — 01/09/2008 (21:58)

    Katherine, jamais me esquecerei de todos, mas com pessoas iguais a você e a Pierre, meu irmão de fé, que me cativaram, meu amor é maior. Um abraço e até breve, com as bênçãos de Deus.

  3. Comentário por Cris — 11/09/2008 (15:10)

    Oi Ari. Não me sinto capaz de externar essa SAU-DA-DE, apenas de senti-la por você diariamente. Mas, quem sou para sentir tanta SAU-DA-DE com essa distância que por breves oito anos de convivência (entrei no Jornal em 2000) me separaram de você?! Se estivesse na Redação poderia saber externar essa SAU-DA-DE nao apenas senti-la! Por isso, trascrevo um poema de Machado de Assis, que, creio, se encaixa nesse meu momento SAU-DA-DE de Ari (”Amigo a gente sente”).

    TE ADORO E SAU-DA-DE (DE) VOCÊ!
    ____________________________________________
    “BONS AMIGOS

    Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir. Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende. AMIGO A GENTE SENTE!!

    Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.Amigo a gente entende!

    Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.Porque amigo sofre e chora. Amigo não tem hora pra consolar!

    Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.Porque amigo é a direção.
    Amigo é a base quando falta o chão!

    Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
    Porque amigos são herdeiros da real sagacidade. Ter amigos é a melhor cumplicidade!

    Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho. Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!”

    Machado de Assis

  4. Comentário por ari donato — 12/09/2008 (22:36)

    Cris, muito obrigado, minha amiga de verdade. Um abraço de saudades.

  5. Comentário por Wesley Sobrinho — 17/09/2008 (9:46)

    Saiba Ari, que minhas últimas horas (foram seis porque sou estagiário) ao seu lado na redação do A Tarde também foram pesarosas. Inexpressivo, ficava imaginando como sentiria falta dos comentários que apunhalava em cada garfe televisiva, das críticas à minha mochila feia (é feia mesmo) e dos conselhos profissionais que me serviram do norte no meu processo de aprendizagem. Carregarei comigo, para sempre, todas estas lembranças. Obrigado por tudo e até qualquer dia destes…

  6. Comentário por ari donato — 17/09/2008 (10:18)

    Wesley, aprendemos muito no contato com aqueles a quem ensinamos, pois podemos ver neles, se é que eles têm, o que consideramos falhas e, assim, evitar cometê-las. Não digo que vi falhas ou erros nos que estiveram comigo, mas aprendi, isso sim, a entender as diferenças que há entre as pessoas e que exigem tolerância, para uma convivência. Um abraço e obrigado pelas palavras carinhosas.

  7. Comentário por Crislaura — 19/09/2008 (12:01)

    Lembra quando tivemos o primeiro contato em 2000 quando cheguei pela primeira vez à sucursal do A Tarde em Juazeiro para cobrir férias de nosso saudoso Moacyr Alixandrino? Pois é, tantas conversas de lá para cá rolaram entre o rio e a BR que nem de longe, nossa amizade fortalecida dará recado. Meu trabalho no jornal veio e nos encontramos sendo meio ‘bichos do mato, da caatinga’ realidade essa que nos aproximou em linguagem e mesmices vividas. Da sua saudade de 75 à minha saudade de 2000. De seu vislumbre ultimado pelo retrovisor, à minha certeza de que td será parte de muito causo contado nas noites de lua, ao redor quem sabe, de uma fogueira em Guanambi ou Juazeiro, viola mais treinada que aquela de anos atrás e muita trela para dar à nossa prosa. “Êita vida besta meu Deus!”, já diria o poeta que de tanto observar o rotineiro, gerou apreciação no que nós temos e não largamos nem com briga de foice. A hora é de aproveitar, revirar, revisitar, criar, olhar duas vezes (agora sobra tempo), escrever crônicas, poemas, artigos e modas de viola. Tomra que eu receba convite! Meu carinho para vc, amigo que tanta força me deu nesses oito anos.

  8. Comentário por ari donato — 19/09/2008 (23:06)

    Mais uma vez, Cris, você, reforçando nossa amizade, nosso amor um pelo outro, como são os caatingueiros. Ainda me lembro, sim, dos seus primeiros dias na Redação, sem saber para que lado ia e me lembro que você me chama de Lancelot. A chefia que exerci nos últimos anos nos afastou um pouco, mas, como disse você, agora são novos tempos, e quem sabe, voltaremos aos ponto inicial da amizade no mesmo nível. Abraço forte, ‘meninadabeiradorio’. Era assim que a chamava.

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