28
de
agosto
Que beleza! Tonico e Tinoco I
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Tonico e Tinoco uma das mais expressivas duplas da música caipira e chamada de "Coração do Brasil" | Fotos Divulgação
EU VIM A tomar conhecimento dos irmãos Tonico e Tinoco aos 12 anos de idade, ao ouvir pela primeira vez a toada “Chico Mineiro”, imortalizada pela dupla. Foi na primavera de 1965, justamente quando eles haviam acabado de filmar o drama musical “Obrigado a matar”, do espanhol Eduardo Llorente, baseado na lenda narrada na canção. Numa manhã de primavera, em Guanambi, no sudoeste do Estado, eu brincava com outros garotos e, em meio à algazarra, um deles entoou: “Fizemos a última viagem, foi lá pro sertão de Goiás…".
Aqueles versos ficaram em meu subconsciente, latentes, para aflorarem anos depois. Na época, de anos pós-golpe militar, minha preferência musical, ainda indefinida, estava preenchida pelas primeiras canções da Jovem Guarda, em que sobressaiam “O calhambeque” e “A história de um homem mau”, gravadas por Roberto Carlos para a juventude, e as modas sertanejas que meu pai ouvia no rádio nos finais de tarde.
Tonico e Tinoco, registrados João Salvador Perez (1917-1994) e José Perez (1920), gravaram “Chico Mineiro” em 1946, em um disco 78 rpm (quantidade de giros por minuto) que tinha a valsa “Cortando estradão” do lado A. Em 1958, relançaram a toada no álbum “Tonico e Tinoco com suas modas sertanejas”, primeiro LP de música caipira em 33 rpm no País e também o primeiro da dupla, contendo, ainda, a valsa “Saudades de Matão” e a toada “Tristeza do Jeca”.
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Capas do primeiro e do segundo LPs lançados por Tonico e Tinoco, respectivamente, em 1958 e 1959
Filhos de um imigrante e netos de um sanfoneiro, com pouco mais de 12 anos os dois já acompanhavam os avós na animação de bailes da colônia espanhola, na zona rural de Botucatu, interior do Estado de São Paulo, onde nasceram. Uma das canções que mais cantaram foi “Tristeza do Jeca”, composta em 1918 por Angelino Oliveira e popularizada, em 1937, na voz de Roque Ricciardi (1894-1976), o Paraguassu.
Animados por familiares e amigos, em 1935 os irmãos Perez fizeram a primeira apresentação profissional, ao lado de um primo (Miguel), na forma do “Trio da Roça”. Por essa ocasião, a família Perez, pressionada pela crise econômica brasileira, peregrinou em busca de melhoria até parar na capital paulista, onde os irmãos conheceram os compositores Raul Torres, João Florêncio e Teddy Vieira e participaram de programas de calouros.
Em um deles, o “Arraial da Curva Torta”, do capitão Furtado, na Rádio Difusora, os dois disputaram uma vaga de violeiro. Cantaram o cateretê "Tudo tem no sertão", de Tonico, e se classificaram. Na etapa final, interpretaram a moda de viola "Adeus Campina da Serra", de Raul Torres e Cornélio Pires, e foram aplaudidos 180 segundos, registrados em um cronômetro, contra 90 segundos da dupla segunda colocada.
Em 1945 gravaram o primeiro disco da carreira, um compacto em 78 rpm com o cateretê “Em vez de agradecer” (Invéis de me agradicê) do lado A, de autoria de Capitão Furtado, Jaime Martins e Aimoré. Devido a um acidente técnico, os irmãos não puderam gravar a segunda música. O vozeirão da dupla ‘estourou’ o microfone, de modo que no lado B ficou a moda “Salada internacional”, com Palmeira e Piraci.
Neste ano, gravaram “Tudo tem no sertão”, “Porto Esperança”, “Sertão do Laranjinha”, “Percorrendo meu Brasil”, “Cuiabano” e “Moreninha”. Outras 20 canções eles lançaram entre junho de 1946 e dezembro de 1949, entre as quais “Chico Mineiro” e “Tristeza do Jeca”, conquistando o título de maior dupla sertaneja do País e um contrato com a Rádio Tupi. Em 1950 abriram espaço na televisão e a partir de 1951 passaram a ser chamados de "A dupla coração do Brasil".
Abaixo, a letra da toada "Chico Mineiro", com grafia conforme a pronúncia dos intérpretes, na gravação de 1958, inclusa no disco "Tonico e Tinoco e suas modas sertanejas"
Chico Mineiro
(Tonico-Francisco Ribeiro)
DECLAMADO
Cada vez que eu me alembro
do amigo Chico Mineiro
das viagens que nois fazia
Ele era meu cumpanheiro
Sinto uma tristeza
uma vontade de chorá
alembrando daqueles tempo
que não mais, hai de vortá
Apesar d’eu ser patrão
eu tinha no coração
O amigo Chico Mineiro
caboclo bão, decidido
na viola era delorido
e era o peão dos boiadeiro
Hoje, porém, com tristeza
recordando das proezas
da nossa viage e motim
Viajemo mais de dez ano
vendendo boiada e comprano
por esse rincão sem fim
O caboclo de nada temia
mas, porém chegou o dia
que o Chico apartou-se de mim
CANTADO
Fizemo a última viagem
Foi lá pro sertão de Goiás
Fui eu e o Chico Mineiro
também foi o capataz
Viagemo muitos dias
pra chegar em Ouro Fino
aonde nóis passemo a noite
numa festa do Divino
A festa tava tão boa
mas antes não tivesse ido
o Chico foi baleado
por um homem desconhecido
Larguei de comprar boiada
Mataram o meu companheiro
Acabou o som da viola
acabou-se o Chico Mineiro
Depois daquela tragédia
fiquei mais aborrecido
Não sabia da nossa amizade
Porque nós dois era unido
Quando vi seu documento
me cortou meu coração
Vim saber que o Chico Mineiro
era meu legitimo irmão.
© ari donato.2008
Com informações dos sites Tinoco do Brasil (www.tinocodobrasil.com.br), Tonico e Tinoco (www.widesoft.com.br/users/pcastro2/biograf.htm) e Enciclopédia da Música Brasileira/Sertaneja, da PubliFolha (2000)

