MODAS E VIOLA

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14

de
outubro

Passos.Cap_4

Continuando com "Passos" 

QUANDO, em 31 de março de 1964, ocorreu o Golpe de Estado que estabeleceu no Brasil a ditadura militar, regime político que se estenderia até 1985, eu residia em Guanambi e me preparava para a admissão ao Ginásio. Acabara de concluir o 5º ano primário no Grupo Escolar Getúlio Vargas, da rede pública estadual, e, com 11 anos de idade, pouco sabia a respeito do que estava acontecendo, o rock de Elvis Presley e as canções da Jovem Guarda eram mais fortes para mim.

Só mais tarde, no Colégio Estadual Luiz Viana Filho, presidindo o Centro Cultural Assis Chateaubriand (1970 e 1971), é que fui saber o que ocorria no País, nas conversas com o diretor Cláudio Hoffmann e os professores Ary Guimarães e Arantes Aquino. Foi o professor Ary, também promotor público, quem me falou, e presenteou-me com um livro biográfico, sobre Salvador Allende (1908-1973) e sua vitória, em 1970, para a Presidência do Chile, na condição de primeiro marxista na história da política mundial a chegar ao poder pelo voto popular.


Escola Estadual Getúlio Vargas, antigo Grupo Escolar Getúlio Vargas,
construído em 1938 | Foto Ari Donato

Eu acabara de me mudar para Salvador quando, no início de setembro de 1972, Allende denunciou tentativas norte-americanas para desestabilizar o Chile, mas não lhe deram atenção na ONU e no dia 11 de setembro de 1973 eu ouvi no rádio ter sido seu Governo derrubado pelo general Augusto Pinochet, que se manteve no posto de ditador até 1990. No mesmo dia, Allende sacrificou-se com um tiro de fuzil AK-47 na cabeça. Pinochet morreu em 10 de dezembro de 2006.

Sem poder levar temas dessa natureza para a sala de aula, alguns professores comentavam sobre autoritarismo, perda de direitos constitucionais, perseguição policial e militar, prisão, tortura e censura prévia aos meios de comunicação na América Latina, mas as críticas e o combate eram ao Tropicalismo, ao LSD, aos cabelos longos no homem e à libertação da mulher. De caráter político ou contra o sistema vigente nada falavam e a maioria se limitava a reproduzir os ensinamentos sobre história, geografia e política brasileiras das páginas dos livros didáticos recomendados pelo Ministério da Educação.

O médico José Humberto Nunes era o prefeito de Guanambi (ele fora eleito pela primeira vez em 1955 e retornaria ao cargo para um terceiro mandato em 1971) e o governador do Estado Antônio Lomanto Júnior. Quando se deu a chamada abertura política, em 1985, eu estava há sete anos formado em Comunicação, com habilitação para Jornalismo, pela Universidade Federal da Bahia. Meu período de estudos em Guanambi, entre 1964 e 1971, foi em paralelo a uma fase política extremamente autoritária, mas nada ocorria da parte dos estudantes que denunciasse descontentamento com a situação, a exemplo da maioria das cidades brasileiras.

Minha memória pouco registra, mas publicações diversas mostraram-me que em 1964, no dia 15 de abril, o Congresso Nacional elegera o general Castello Branco presidente da República, dando início à ditadura militar. Castelo ficaria até 1967, extinguiria os partidos políticos e instituiria eleições indiretas para presidente e governadores. Ainda, cassaria mandatos de deputados federais e estaduais, suspenderia os direitos políticos de centenas de cidadãos e criaria o Serviço Nacional de Informações (SNI), uma polícia política para fiscalizar, inclusive, a movimentação dos estudantes em todo o País.

Depois, viria o Governo Costa e Silva, de 1967 a 1969. Nesta época, em Guanambi, funcionários federais sofreram repressão, mas na cidade pouco se comentava a respeito e eu tomei conhecimento dos fatos na Casa Paroquial, ouvindo o padre Francesco Barone. Fora daí, nas salas de aula predominavam as sessões das datas cívicas e nas ruas os desfiles festivos, que não conseguiram abafar o fechamento do Congresso por Costa e Silva e a assinatura, no dia 13 de dezembro de 1968, do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que duraria até 1979, como poderosa arma da ditadura.

Eu cursava o último ano ginasial quando, no dia 26 de junho de 1968, no Rio de Janeiro, a União Nacional dos Estudantes (UNE) promoveu a Passeata dos Cem Mil, em protesto pela morte do estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, ocorrida em 28 de março, atingido por uma bala, no coração, durante uma invasão policial ao restaurante Calabouço. Esses fatos somente viria a tomar conhecimento após entrar para o Movimento Estudantil, no início de 1975.

Quando sai de Guanambi, dia 30 de agosto de 1972, o presidente do País era o general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). Em Guanambi, o prefeito José Humberto Nunes cumpria seu terceiro mandato e, no governador do Estado, assumira Antonio Carlos Magalhães, eleito indiretamente pelos militares. A propaganda oficial sobre o Milagre Brasileiro e a construção da Rodovia Transamazônica era a tônica nas escolas, ao som de “Eu te amo meu Brasil”, canção ufanista gravada, em 1970, pelo grupo da Jovem Guarda “Os Incríveis”.

O autor da canção, o cearense de Itaiçaba Dom (falecido em 2000), nome artístico de Eustáquio Gomes de Farias, da dupla Dom e Ravel (Eduardo Gomes de Farias), foi injustamente acusado de ter escrito a letra a pedido da ditadura. “Eu te amo meu Brasil” foi composta, explicaria Ravel anos depois, sob a euforia nacional pela conquista do tricampeonato mundial de futebol no México, em 1970. Por conta do sucesso e da ocasião, o então governador de São Paulo, Roberto de Abreu Sodré, teria sugerido ao presidente Médici transformar a canção em hino nacional.

A dupla Dom & Ravel gravou em 1969 o primeiro LP, com o título de "Terra boa”, onde estão as canções “Obrigado, homem do campo” e “Você também é responsável”, esta transformada pelo então-ministro da Educação, Jarbas Passarinho, em hino do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), em 1971. Operando como locutor no serviço de alto-falantes do Cine Teatro Sorbone e nas sessões noturnas do Parque Estrela do Sul, entre 1970 e 1972, eu executava canções escritas por Dom e Ravel e interpretadas por cantores da Jovem Guarda, entre os quais Wanderley Cardoso, Wanderléia, Os Incríveis e Jerry Adriani.

 
Os irmãos Eustáquio Gomes de Farias (Dom) e Eduardo Gomes de Farias (Ravel), autores de “Eu te amo meu Brasil” | Foto Divulgação

Leia o Capítulo 5
Leia o Capítulo 3

© ari donato.2008

Arquivado em: Texto I

4 Comentários »

  1. Comentário por katherine funke — 22/10/2008 (22:36)

    Caramba, Ari! Isso aí dá um puta livro de memórias!! Guarde, aumente, amplie, aprofunde!! Deixe a alma sangrar e chorar e sorrir e escreva mais e mais.

    E aqui vai algo para ajudar a sorrir de verdade e enxergar tudo de bom no momento do ponto final de cada trechinho.

    “Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,

    E disse à minha alma: quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?

    E minha alma disse: não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho”

    Walt Whitman

  2. Comentário por ari donato — 23/10/2008 (10:30)

    Kathi, obrigado
    vou tomar essas palavras como lume.
    Estou escrevendo essas coisas assim, de chofre, aproveitando os dias e as horas que seriam de trabalho na Redação, para não desperdiçá-los com coisas fúteis. Mas estou, também, me distraindo, ao meu modo, é claro. Pois, distrair, viver a vida, curtir a vida, depende de cada um, não há uma forma única. E eu estou vivendo da maneira que gosto. Fico feliz por você passar por aqui. Estive com Pierre na semana passada, dia 16/10.

  3. Comentário por Mônica Bichara — 27/10/2008 (0:28)

    São lembranças realmente dignas de um livro, Ari. Principalmente pelo link que você faz com Guanambi, uma presença constante em sua vida. lembrei de você na semana passada, ao encontrar vários conterrâneos seus na posse de Renato Simões no cargo de desembargador. Até dona Carmita, mãe de Isa, estava lá. Pena que meu amigo Toninho não apareceu para matar a saudade, mas encontrei Marinho e outros irmãos. Beijos

  4. Comentário por ari donato — 27/10/2008 (18:20)

    Obrigado, Mônica, fico feliz em ter você aqui comigo neste espaço mais uma vez.
    Com vocês me incentivando, pois não tenho tido, vou adiante. Muito obrigado e um beijo.

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