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5

de
dezembro

Tropas e viola (I)

Histórias do meu avô

QUEM parte de Guanambi, no interior da Bahia, a 790 quilômetros a sudoeste de Salvador, em direção à cidade de Palmas de Monte Alto, anda pouco mais de 40 quilômetros, descendo mais para o sudoeste, até chegar perto da divisa de Minas Gerais. Mudando o rumo da estrada, na direção da Capital, para o Leste, o caminhante entra no município de Caetité, fazendo uma marcha um pouco menor.

Por toda aquela região da Serra Geral, ao longo da porção situada do lado direito do São Francisco, desde as contíguas Carinhanha e Malhada, ao sul, até Barra, subindo o rio, já do outro lado, a distância média entre cidades limites é de 40 quilômetros. Esta extensão, que corresponde a cinco ou seis léguas, pois uma légua equivale a 6,6 km, era a que percorriam os tropeiros em 12 horas de marcha, de um pouso a outro.

Meu primo Dário Teixeira Cotrim escreveu em “Guanambi, aspectos históricos e genealógicos” (Cuatiara, 1994) que devido à escassez de moedas na região, no século XIX, os mercadores trocavam seus artigos abertamente no mercado, e quem tinha comércio na freguesia de Santana do Caetité (atual Caetité), por exemplo, levava usa tropa até o arraial da Parateca (município de Malhada), a oeste, para negociar.

Deslocamentos iguais ocorriam com comerciantes de outros locais, completa o escritor, citando que após cumprir essas caminhadas os tropeiros pernoitavam na estrada, dando origem a pontos aos quais denominavam de pouso. Muitos desses pousos, que se firmaram mais tarde como pontos de negócio, floresceram e se transformaram em movimentados centros urbanos.

Guanambi possuía um ponto desses, onde os tropeiros se reuniam para vender suas mercadorias, parte delas vinda do Porto de Salvador, depois de passar por Cachoeira e se juntar às cargas do Recôncavo. Este era um dos roteiros dos tropeiros que negociavam na Serra Geral no início do século XVIII, e entrava na região por Caetité. Na verdade, era “Caminho da Bahia” ou “Caminho dos Currais do Sertão”, de acesso às Minas Gerais do Brasil Colônia.

Era a mesma extensa rota que, a partir de fins da segunda metade do século XVII, ligava a região do Recôncavo ao vale do Rio das Velhas, abastecendo de gado a zona mineradora. Começava na cidade do Salvador, maior centro urbano da América Portuguesa na época, e seguia, de vapor, até Cachoeira, no Recôncavo, para acompanhar as margens do Rio Paraguaçu até alcançar a região da vila de Rio de Contas. Depois, seguia até o Rio São Francisco, na altura de Malhada, acompanhando o seu curso até Barra.


Este era o "Caminho da Bahia", do qual falava meu avô, quando historiava…


… a façanha dos tropeiros, conduzindo cargas do Recôncavo até a Serra Geral

Quando chegavam à cidade, esses primeiros feirantes alojavam-se à sombra de um copioso imbuzeiro, em uma área onde, atualmente, se situa a Praça Coronel Cajayba. Segundo Dário Cotrim, anos depois uma cobertura de palha foi erigida no local e, ao seu redor, surgiu um pequeno comércio semanal que deu origem, já na metade do século XX, a uma feira livre, com a construção de um mercado municipal.

Nesses pousos havia mangas de aluguel, com pastos para as animais durante o descanso da tropa. Na antiga estrada entre o Gentio (atual distrito de Ceraíma, município de Guanambi) e Caetité, cita o escritor Dário Teixeira Cotrim, havia um juazeiro de gigantesca copada, sob a sombra do qual os tropeiros, especialmente retirantes das Lavras de Diamantina com destino a São Paulo, faziam parada.

Meu avô Domingos Antônio Teixeira (1903 - 1976) dizia-me ter feito, ele mesmo, viagens pelas trilhas das tropas comandadas por seu pai, o major Antônio Othon Teixeira (1875 - ?) que vendia algodão, azeite, rapadura e outros produtos da região de Guanambi nas cidades ribeirinhas do médio São Francisco e, lá, comprava sal e tecido industrializado, mercadorias raras naquela época, além de açúcar e peixe.

O sal marinho, meu avô escreveria mais tarde no seu livro “Respingos Históricos” (Editora Arembepe, 1991), estava entre os produtos mais procurados, pois, àquela época, bem antes do assentamento dos trilhos da Leste Brasileiro, de Salvador para Juazeiro e de São Félix para a Urandi, passando por Brumado e Caculé, o sal marinho era pouco conhecido do sertanejo, que usava o sal da terra.

O major Antônio Othon Teixeira, na verdade meu bisavô, era filho do também major Othon Teixeira de Azevedo (1843-1921), que se dedicou, ainda jovem, à profissão de tropeiro, transportando carne, azeite de mamona e fumo para as Lavras de Diamantina (Lençóis e Andaraí), onde residiam muitos dos seus parentes. Suas tropas chegavam até Parateca, onde mantinha um comércio de produtos variados.

Essas histórias eu ouvia do meu avô Teixeira (Domingos Antônio Teixeira), sentado no alpendre da sua casa. Enquanto ele contava detalhes das suas viagens, eu olhava para a copa de um grande imbuzeiro, no quintal, e via raios do luar projetados nas folhas, que balançavam, sopradas pelo vento, dando movimento a pequenas sombras, e estas saltavam, como se fossem pequenos animais, de um galho a outro.

“Davi! Está me ouvindo?” Era assim que me chamava, embora tivesse, juntamente com minha mãe, sua filha, escolhido o meu nome. Eu ria, repetia palavras da última frase que ele havia falado e voltava-lhe a atenção. São Félix e Cachoeira, disse-me certa vez, são como Carinhanha e Malhada, de uma se vê a outra, mas separadas pelo rio. Aqui, entre nós, é o São Francisco; lá, no Recôncavo, é o Paraguaçu, de onde vieram certas músicas cantadas na Serra Geral.

Teria a viola vindo, também, desta região, acompanhando os tropeiros? É o que quero descobrir.

© ari donato.2008

Arquivado em: Guanambi I

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